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O Novo Equilíbrio Global

  • Foto do escritor: Paulo Corner
    Paulo Corner
  • há 1 dia
  • 8 min de leitura

Uma foto mesclando a bandeira dos EUA de um lado e a da China de outro.

 

Eixo

Carter

Trump

Diplomacia

Multilateral, direitos humanos

Transacional, bilateral

Petróleo

Redução dependência, energia limpa

Expansão fóssil, autossuficiência

Guerra

Evita conflitos diretos

Ações pontuais + sanções

Imperialismo

Redução formal

Reconfiguração (econômica/financeira)

Gasto militar

Moderado (pós-Vietnã)

Alto (modernização tecnológica)

 

Enquanto Carter representa um modelo de contenção moral e diplomática, tentando reduzir o peso imperial americano em um mundo ainda bipolar (Guerra Fria), Trump representa uma reconfiguração do imperialismo, menos territorial/militar e mais Econômico (sanções), Energético (autossuficiência) e tecnológico (ciber e espaço).

Em termos objetivos, Carter tentou reduzir a dependência estrutural (energia e guerra) e Trump buscou maximizar poder interno e negociar a partir de força econômica 

O quadro fica mais claro quando saímos da comparação “presidente contra presidente” e passamos a enxergar a mudança de arquitetura do poder global. Hoje, o sistema não é mais unipolar como nos anos 1990, nem bipolar como na Guerra Fria.

O desenho mais útil é este: os EUA seguem como a maior potência militar-financeira e o centro da principal rede de alianças; a China é a principal potência industrial-comercial e o competidor sistêmico de longo prazo; a Rússia é menor economicamente, mas continua sendo uma potência militar-nuclear e um grande ator de disrupção estratégica.

As avaliações de ameaça do governo dos EUA em 2025 e 2026 tratam a China como o rival estratégico mais abrangente e a Rússia como risco militar-nuclear agudo, com cooperação crescente entre adversários.

Em 2024, a assimetria material era esta: PIB nominal de cerca de US$ 28,75 trilhões para os EUA, US$ 18,74 trilhões para a China e US$ 2,17 trilhões para a Rússia, segundo o Banco Mundial. No plano militar, o SIPRI estimou US$ 997 bilhões de gasto militar dos EUA, US$ 314 bilhões da China e US$ 149 bilhões da Rússia em 2024. Em outras palavras: a Rússia não compete com os EUA pela massa econômica; compete por veto militar, energia, armas nucleares e choque geopolítico. A China, ao contrário, compete por escala industrial, tecnologia, cadeias produtivas e projeção marítima crescente.


O modelo comparativo: como cada presidência americana reposicionou os EUA diante de Rússia/URSS e China


1. Jimmy Carter: contenção moral, crise do petróleo e transição incompleta

Carter governou na fase final da détente. Seus marcos centrais foram os Acordos de Camp David e o SALT II, além dos tratados do Canal do Panamá. Sua lógica era reduzir atrito sistêmico e dar um verniz normativo à política externa com ênfase em direitos humanos. Mas a crise iraniana, o choque do petróleo e a invasão soviética do Afeganistão expuseram o limite dessa linha.

No eixo estrutural, Carter entendeu cedo um ponto que voltaria décadas depois: energia é segurança nacional. O problema é que sua resposta foi mais correta no diagnóstico do que eficaz politicamente no curto prazo. Ele tentou reduzir vulnerabilidade externa; não conseguiu converter isso em supremacia estratégica. Na comparação com a China e com a Rússia de hoje, Carter pertence à fase em que Washington ainda reagia à escassez e à instabilidade, não à competição industrial total.


2. Ronald Reagan: rearmamento, pressão sobre Moscou e restauração da primazia

Reagan muda o jogo. Seu governo combinou rearmamento, pressão ideológica e negociação seletiva. O tratado emblemático foi o INF de 1987, assinado com Gorbachev, mas o tratado só foi possível porque veio depois de uma escalada deliberada da pressão militar e estratégica dos EUA. Reagan praticou a fórmula “negociar a partir da força”.

No petróleo, os anos 1980 coincidiram com um ambiente de desregulamentação e realinhamento energético que ajudou a enfraquecer a URSS, altamente dependente de receitas de commodities. Em termos de equilíbrio global, Reagan foi o presidente que mais claramente consolidou a tese de que a combinação entre superioridade militar, aliança atlântica e pressão econômica podia quebrar o rival eurasiático. Essa lógica continua viva hoje, só que agora o rival principal no plano econômico-industrial não é Moscou, e sim Pequim.


3. Bill Clinton: auge unipolar americano e integração da China ao sistema

Clinton governa no momento de máxima confiança estratégica dos EUA. O símbolo disso é duplo. De um lado, o NATO-Russia Founding Act de 1997, que tentou acomodar a Rússia em uma ordem europeia ampliada sob liderança ocidental. De outro, a costura política que desemboca na entrada da China na OMC em 2001, decisão que acelerou a integração chinesa ao mercado global.

Aqui está o ponto decisivo: Clinton ajudou a desenhar o mundo que depois passou a desafiar os EUA. A ampliação da OTAN e o manejo da ordem europeia alimentaram, do ponto de vista russo, a narrativa de cerco. Já a aposta na integração econômica chinesa fortaleceu a base industrial e exportadora de Pequim. Em retrospecto, a década de 1990 foi a era em que Washington acreditou que poderia universalizar sua ordem liberal sem pagar custo geopolítico relevante. Foi um erro de cálculo estratégico. A Rússia não foi absorvida; a China não foi liberalizada no ritmo esperado.


4. George W. Bush: guerra ao terror, sobre-extensão militar e distração estratégica

George W. Bush recoloca os EUA em guerra aberta após 11 de Setembro. O eixo central deixa de ser a competição entre grandes potências e passa a ser a Global War on Terror. Os marcos são conhecidos: guerra do Afeganistão, guerra do Iraque, retirada do ABM Treaty e o Moscow Treaty (SORT) com a Rússia.

O problema geoestratégico da era Bush foi severo: os EUA gastaram colossalmente em guerras de desgaste no Oriente Médio enquanto a China acumulava capacidade industrial, tecnológica e comercial. Esse desvio de foco foi caríssimo. O projeto Costs of War, da Brown, estima que as guerras pós ataques terroristas de 11 de Setembro, no Iraque, Afeganistão, Paquistão, Síria e outros teatros custaram cerca de US$ 8 trilhões, sem contar integralmente os juros futuros, e o cuidado com veteranos pode somar mais US$ 2,2 a 2,5 trilhões até 2050.

Em termos de “máquina de guerra”, Bush representa a fase de máxima mobilização expedicionária pós-Guerra Fria. Foi uma presidência de poder militar real, mas de eficiência estratégica discutível. O Iraque corroeu legitimidade, drenou recursos e não conteve nem a ascensão chinesa nem a recomposição russa. É o momento em que a hegemonia americana ainda parecia absoluta, mas já começava a ficar mais cara do que parecia.


5. Barack Obama: contenção seletiva, drones e “pivot to Asia”

Obama herda o custo político e fiscal das guerras longas e tenta reordenar prioridades. Seus tratados e acordos mais relevantes foram o New START com a Rússia, o JCPOA com o Irã e o Acordo de Paris. No plano estratégico, o traço mais importante foi o “rebalance/pivot to Asia”: reconhecer que a questão central do século XXI não era apenas o Oriente Médio, mas a Ásia-Pacífico e a ascensão chinesa.

Obama não desmontou a máquina de guerra; ele a deixou mais tecnológica e a tornou politicamente menos visível. Menores ocupações terrestres, mais drones, forças especiais, inteligência e coalizões. Em termos de equilíbrio global, Obama foi o primeiro presidente a reorganizar seriamente a política externa americana em torno do fato essencial: a China havia deixado de ser apenas parceira comercial e se tornara competidora estratégica.


6. Donald Trump 1 e 2: desacoplamento, energia, tarifas e competição aberta

Trump rompe com o otimismo integrador dos anos Clinton. Seu primeiro mandato combinou Acordos de Abraão, pressão máxima sobre o Irã, tarifa comercial e linguagem aberta de competição com a China. Também retirou os EUA de alguns arranjos multilaterais que, a seu ver, limitavam liberdade de ação americana.

No petróleo, Trump aprofundou a visão de dominância energética. O dado estrutural é que os EUA chegaram a níveis recordes de produção: a EIA registrou 13,2 milhões de barris/dia em 2024, mantendo os EUA como maior produtor mundial de petróleo bruto; a produção mensal de 2025 também permaneceu em patamar muito elevado. Isso muda a geopolítica americana: o país deixa de agir apenas como consumidor vulnerável e passa a atuar com mais margem energética e estratégica.

Sobre o segundo mandato de Trump, em março de 2026 ainda é cedo para julgamento histórico fechado. O que já dá para afirmar com segurança é que o ambiente estratégico oficial dos EUA continua tratando China e Rússia como ameaças centrais, com a China como competidor mais amplo e a Rússia como fonte de risco militar e nuclear particularmente agudo. A diferença de Trump para Bush e Obama está no método: menos fé em arquitetura multilateral, mais pressão econômica, tarifária e coercitiva, e maior exigência de alinhamento dos aliados.


CUSTOS DA MÁQUINA DE GUERRA: POR PRESIDÊNCIA, EM TERMOS COMPARATIVOS (sem Clinton e Bush)

Presidente

Gasto anual (USD atual)

% PIB

Característica

Carter

~150–180 bi

5–6%

Contenção pós-Vietnã

Reagan

~300–450 bi

6–7%

Expansão massiva

Obama

~600–700 bi

3–4%

Alta tecnologia, drones

Trump

~700–850 bi

3–3,5%

Modernização + pressão econômica

 

Para comparar presidências diferentes, o melhor não é olhar só um número isolado, mas o perfil do gasto.

Carter operou em patamar bem inferior ao atual, ainda sob a sombra do pós-Vietnã, com peso elevado da Guerra Fria, mas sem a explosão orçamentária posterior. Reagan elevou fortemente o esforço militar e consolidou o rearmamento da década de 1980.

Clinton colheu o “dividendo da paz” relativo do pós-Guerra Fria e operou com gasto alto, porém menor como proporção do desafio percebido.

Bush voltou a inflar violentamente o custo militar com Afeganistão, Iraque e a guerra global ao terror.

Obama reduziu a intensidade das grandes ocupações, mas preservou orçamento militar muito elevado, convertendo parte da máquina para tecnologia, ISR, drones e capacidades de precisão.

Trump elevou novamente a ênfase em prontidão, dissuasão e modernização em contexto de competição entre grandes potências. Em 2024, os EUA gastaram US$ 997 bilhões, frente a US$ 314 bilhões da China e US$ 149 bilhões da Rússia.

A leitura correta é esta: a superioridade americana continua gigantesca em gasto militar absoluto, mas o custo de manter primazia global subiu muito. E mais: parte crescente desse gasto precisa hoje servir simultaneamente para três teatros estratégicos: Europa, Indo-Pacífico e Oriente Médio. A China força os EUA a pensar em guerra industrial, naval, espacial, cibernética e de semicondutores; a Rússia força os EUA a manter prontidão nuclear, estoques, mísseis e aliança atlântica coesa.

 

O novo equilíbrio global em síntese

Eixo 1: EUA

Os EUA seguem sendo a única potência com combinação plena de alianças globais, dólar, projeção naval oceânica, base tecnológica militar, capacidade expedicionária e dissuasão nuclear estratégica. Mas seu problema central não é falta de poder; é dispersão do poder. Washington consegue muita coisa, mas já não consegue tudo, em todo lugar, ao mesmo tempo, sem custo crescente.


Eixo 2: China

A China é o rival mais perigoso no longo prazo porque sua força principal não é só militar. É industrial, exportadora, tecnológica e logística. A entrada na OMC em 2001 foi um divisor de águas, e hoje o país combina escala manufatureira com modernização militar acelerada. O relatório anual do Pentágono sobre a China descreve explicitamente a ambição chinesa de se tornar uma força militar “world-class” até 2049.


Eixo 3: Rússia

A Rússia não é equivalente econômica nem demograficamente aos EUA ou à China, mas continua decisiva porque mantém arsenal nuclear massivo, capacidade de guerra convencional regional, energia, exportação de armamentos e disposição para assumir risco elevado. O SIPRI observa que EUA e Rússia ainda concentram quase 90% das ogivas nucleares do mundo. Isso basta para impedir qualquer leitura simplista de “declínio irrelevante” russo. Moscou pode ser menor; irrelevante, não é.


Eixo 4: parceria China-Rússia

O fator novo do sistema é a convergência sino-russa. O comunicado conjunto de 4 de fevereiro de 2022 e a declaração de maio de 2025 sobre estabilidade estratégica mostram alinhamento político e estratégico crescente, ainda que não seja uma aliança formal nos moldes da OTAN. Para os EUA, isso complica a equação: conter a Rússia sem empurrá-la ainda mais para a China; conter a China sem abrir espaço demais para disrupção russa.

 

Analiticamente, o ciclo completo fica assim:

  • Carter tentou moralizar e estabilizar a ordem.

  • Reagan reverteu isso com rearmamento e coerção estratégica.

  • Clinton administrou o auge unipolar e cometeu o erro de supor que integração econômica e expansão institucional resolveriam tudo.

  • George W. Bush desperdiçou parte da vantagem unipolar em guerras longas e caras.

  • Obama percebeu a centralidade da China, mas fez a transição de forma parcial.

  • Trump assumiu sem rodeios que o mundo voltou a ser competição dura entre grandes potências.

A frase técnica mais precisa para o presente é esta: o sistema internacional entrou em uma” tripolaridade assimétrica”:


Os EUA lideram a ordem militar-financeira. A China lidera o desafio industrial-comercial e tecnológico. A Rússia lidera o risco de escalada militar-nuclear e a política de disrupção.

Esse é o novo equilíbrio global.

 
 
 

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