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Redução das emissões de carbono: 2030 e a transformação dos indices de poluentes pelas embarcações marítimas

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    Paulo Corner
  • há 1 dia
  • 6 min de leitura

A partir de 2030, o transporte marítimo e o transporte aéreo serão profundamente impactados pelas políticas globais de redução das emissões de carbono. Na prática, o carbono deixará de ser apenas uma questão ambiental e passará a ser um componente do custo logístico, assim como combustível, frete, armazenagem e seguros.

No transporte marítimo, mais de 95% das emissões são compostas por CO₂ proveniente da queima de combustível.

Para empresas de comércio exterior, agentes de carga e armadores, essa será provavelmente a maior transformação desde a introdução do contêiner.


O IMPACTO NO TRANSPORTE MARÍTIMO

O principal órgão regulador é a IMO (International Maritime Organization), que estabeleceu a estratégia de neutralidade climática para aproximadamente 2050, com metas intermediárias para 2030. Entre elas:

  • redução de pelo menos 20% das emissões totais de GEE (buscando 30%) em relação a 2008;

  • redução da intensidade de carbono do transporte marítimo em pelo menos 40%;

  • utilização de combustíveis de emissão zero ou quase zero em 5% a 10% da energia consumida pela frota mundial até 2030.


AS PRINCIPAIS MUDANÇAS NO TRANSPORTE MARÍTIMO

1. Navios pagarão pelo carbono emitido

A tendência mundial é que o navio que emitir acima dos limites permitidos tenha que:

  • comprar créditos de carbono;

  • pagar taxas ambientais;

  • ou compensar financeiramente suas emissões.

Isso transforma o carbono em um novo custo operacional. A IMO vem estruturando um modelo global de padrão de intensidade de combustível associado a um mecanismo econômico para emissões.


COMBUSTÍVEIS TRADICIONAIS PERDERÃO COMPETITIVIDADE

O bunker tradicional (HFO/VLSFO) deverá perder espaço para e-Methanol, Amônia verde, Hidrogênio, Biofuels avançados, LNG (como combustível de transição, embora também enfrente novas exigências)

NAVIOS ANTIGOS FICARÃO MAIS CAROS

Navios com motores antigos, elevado consumo, baixo índice CII (Carbon Intensity Indicator), terão que enfrentar fretes menos competitivos, menor valor de mercado, dificuldade para obtenção de financiamento e seguros potencialmente mais caros.


CRESCIMENTO DOS "CORREDORES VERDES"

Rotas específicas deverão operar prioritariamente com embarcações de baixa emissão.

Exemplos: Ásia–Europa, EUA–Europa, Japão–Austrália.

Esses corredores devem receber investimentos prioritários.

Além disto, o embarcador poderá exigir informações como emissão de CO₂ por embarque, emissão por TEU, emissão por tonelada, intensidade de carbono da viagem. Provavelmente o relatório de carbono passará a integrar a documentação logística.


IMPACTOS PARA O COMÉRCIO INTERNACIONAL

O frete ficará mais caro? Provavelmente sim. Não apenas pelo combustível, Mas também pelos fatores emissão de carbono, certificações; investimentos em novas tecnologias, adaptação de infraestrutura e combustíveis alternativos.

Estudos de mercado indicam que os custos da descarbonização poderão elevar o transporte em diferentes graus, dependendo da rota, do tipo de carga e do combustível utilizado.

O importador/exportador precisará informar emissões cada vez mais. Principalmente em operações com a União Europeia, Reino Unido, Canadá, Japão, entre outros.

Grandes multinacionais já vêm exigindo essa informação de seus fornecedores.

Os critérios de escolha de fornecedor mudarão. Hoje muitos embarcadores escolhem apenas por preço e prazo. Depois de 2030 também considerarão emissão de carbono, classificação ambiental do navio, percentual de SAF utilizado, certificações ESG, relatórios de sustentabilidade.


Árvore humanizada grita num deserto rachado sob sol forte, com chaminés fumegantes; placas alertam poluição e calor extremo

 

OPORTUNIDADES PARA AGENTES DE CARGA?

Sim, para agentes de carga e operadores logísticos, surgem novas oportunidades de serviços:

  • cálculo de pegada de carbono por embarque;

  • consultoria em logística de baixo carbono;

  • escolha de armadores com menor emissão;

  • consolidação de cargas para reduzir emissões por unidade transportada;

  • emissão de relatórios de sustentabilidade para clientes;

  • assessoria na compra de créditos de carbono;

  • planejamento multimodal com menor intensidade de carbono.

Esses serviços tendem a agregar valor e diferenciar operadores no mercado.


EFEITOS ESPECÍFICOS PARA O BRASIL

O Brasil possui vantagens competitivas relevantes:

Pontos positivos

  • matriz elétrica predominantemente renovável;

  • potencial para produção de SAF a partir de biomassa;

  • capacidade de produzir metanol verde e hidrogênio verde;

  • grande potencial para biocombustíveis.


Desafios

  • infraestrutura portuária para novos combustíveis;

  • necessidade de modernização da frota;

  • investimentos em abastecimento e armazenagem;

  • adaptação regulatória e capacitação técnica.


ESTÁGIO ATUAL DO CRONOGRAMA DE IMPLANTAÇÃO DE EMISSÃO ZERO 2025

  • Revisão do conjunto de medidas de médio prazo


METAS PARA 2030

Até 2030, a IMO estabelece como objetivos:

  • Redução de 40% da intensidade de CO₂ por unidade de transporte

  • Entre 5% e 10% da energia utilizada pelo transporte marítimo deverá ser proveniente de combustíveis com emissão zero ou quase zero

  • Marco indicativo: reduzir em pelo menos 20% das emissões totais anuais de GEE, com esforço para atingir 30%


META PARA 2040

  • Redução indicativa de aproximadamente 70% das emissões anuais totais de GEE, com esforço para alcançar 80%


META PARA 2050

  • Emissões Líquidas Zero (Net Zero GHG)

  • Transporte marítimo mundial operando com neutralidade de carbono.

 

RESUMO DAS SIGLAS

Sigla

Inglês

Português

Finalidade

IMO

International Maritime Organization

Organização Marítima Internacional

Regulamentar o transporte marítimo mundial

GHG

Greenhouse Gases

Gases de Efeito Estufa

Medir emissões responsáveis pelo aquecimento global

CO₂

Carbon Dioxide

Dióxido de Carbono

Principal gás emitido pelos navios

EEDI

Energy Efficiency Design Index

Índice de Projeto de Eficiência Energética

Eficiência de navios novos

EEXI

Energy Efficiency Existing Ship Index

Índice de Eficiência Energética para Navios Existentes

Eficiência de navios em operação

SEEMP

Ship Energy Efficiency Management Plan

Plano de Gerenciamento da Eficiência Energética

Gestão operacional para reduzir consumo e emissões

CII

Carbon Intensity Indicator

Indicador de Intensidade de Carbono

Classifica o desempenho ambiental dos navios (A a E)

DCS

Data Collection System

Sistema de Coleta de Dados

Coleta anual de dados operacionais e de consumo

LCA

Life Cycle Assessment

Avaliação do Ciclo de Vida

Mede as emissões desde a produção até o uso do combustível

GFI

GHG Fuel Intensity

Intensidade de Gases de Efeito Estufa do Combustível

Avalia a intensidade de carbono dos combustíveis marítimos

Net Zero

Net Zero Emissions

Emissões Líquidas Zero

Meta de neutralidade climática até cerca de 2050


GLOSSÁRIO DAS SIGLAS DA IMO 2011 - 2050


GHG (Greenhouse Gases) - Gases de Efeito Estufa. São todos os gases responsáveis pelo aquecimento global.Os principais são: CO₂ – Dióxido de Carbono, CH₄ – Metano, N₂O – Óxido Nitroso, HFC, PFC, SF₆ .

IMO (International Maritime Organization) - Organização Marítima Internacional. É uma agência especializada da ONU responsável por elaborar normas internacionais sobre: segurança da navegação, prevenção da poluição marinha, eficiência energética e redução das emissões de carbono. Foi fundada em 1948 e possui atualmente mais de 170 países membros. O Brasil é membro.

EEDI (Energy Efficiency Design Index) - Índice de Projeto de Eficiência Energética. Foi a primeira regulamentação mundial obrigatória sobre eficiência energética dos navios. Entrou em vigor em 2013. Aplica-se apenas a navios novos. Mede quanto CO₂ um navio emite para transportar uma tonelada de carga por milha náutica. Quanto menor o índice por Ton, melhor.

EEXI (Energy Efficiency Existing Ship Index) - Índice de Eficiência Energética para Navios Existentes. Entrou em vigor em 2023. É praticamente o "EEDI" aplicado aos navios antigos. A IMO percebeu que milhares de embarcações construídas antes de 2013 permaneceriam em operação por décadas.

SEEMP (Ship Energy Efficiency Management Plan) - Plano de Gerenciamento da Eficiência Energética do Navio. É obrigatório para praticamente toda a frota mundial. Não é para medir desempenho, mas é um plano operacional que define como a embarcação irá economizar combustível.

CII (Carbon Intensity Indicator) - Indicador de Intensidade de Carbono. Talvez seja hoje a sigla mais importante da IMO. Mede quanto carbono o navio emite para transportar carga. Não importa apenas quanto combustível ele consome, mas sim quanto ele emite para realizar determinado transporte. O CII classifica o navio em:  A Excelente, B Muito bom, C Aceitável, D Ruim e E Muito ruim. Navios classificados em D durante três anos consecutivos ou E em um único ano precisam apresentar um plano corretivo aprovado pela administração competente.

DCS (Data Collection System) - Sistema de Coleta de Dados. Desde 2019 todos os grandes navios devem informar anualmente à IMO: combustível consumido, distância navegada, carga transportada, horas de navegação. Esses dados alimentam o cálculo do CII.

LCA (Life Cycle Assessment) - Avaliação do Ciclo de Vida. Até pouco tempo avaliava-se apenas quanto o navio emitia de poluente. Hoje avalia-se todo o ciclo do combustível

Net Zero Emissions - Emissões Líquidas Zero. Não significa zero emissão. Significa que as emissões remanescentes são compensadas por captura de carbono, reflorestamento, combustíveis limpos, créditos de carbono, tecnologias de remoção de CO₂.

CO₂ (Carbon Dioxide) - Dióxido de Carbono. É o principal gás monitorado pela IMO. Quase todas as metas da organização são expressas em redução das emissões de CO₂.

LCA Guidelines - São as diretrizes que determinam como calcular corretamente a emissão dos combustíveis alternativos. Elas servem para padronizar mundialmente os cálculos.

GFI (termo associado às medidas de médio prazo da IMO)

GHG Fuel Intensity  - Intensidade de Gases de Efeito Estufa do Combustível. É uma nova métrica em desenvolvimento pela IMO. Ela mede quanto carbono existe em cada combustível utilizado.

Mid-term Measures - Medidas de Médio Prazo. São o conjunto de regras que deverá entrar em vigor gradualmente após 2027. Devem incluir precificação global do carbono, novos padrões para combustíveis marítimos, mecanismos de incentivo ao uso de combustíveis de baixa emissão, possível sistema internacional de cobrança por emissões.

EEDI Phase 1 - Primeira fase de redução obrigatória da emissão para navios novos.

EEDI Phase 2 - Segunda fase. Metas mais rigorosas.

EEDI Phase 3 - Terceira fase. Exigências ainda maiores de eficiência energética.

IMO GHG Study - É o estudo científico oficial da IMO sobre emissões mundiais da navegação. Até hoje foram publicados: 1º Estudo (2000), 2º Estudo (2009), 3º Estudo (2014), 4º Estudo (2020).

Esses estudos fundamentam tecnicamente todas as decisões regulatórias da IMO.

Esse conjunto de siglas forma a base técnica das políticas da IMO para a descarbonização da navegação e será cada vez mais relevante para armadores, operadores logísticos, agentes de carga e embarcadores que atuam no comércio exterior.

 

 
 
 

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